A instalação de 22 aerogeradores nos concelhos de Odemira e Ourique, no distrito de Beja, está a gerar contestação por parte da Quercus. A associação ambientalista emitiu um parecer desfavorável ao projeto “Parque Eólico do Mira – Hibridização da Central Fotovoltaica de Ourique”, defendendo que a proposta deve ser revista antes de avançar no processo de licenciamento.
Promovido pela Galp, o projeto encontra-se ainda numa fase preliminar da avaliação ambiental, correspondente à Proposta de Definição de Âmbito (PDA) do Estudo de Impacte Ambiental. A consulta pública desta fase terminou a 24 de setembro. Segundo a empresa, a configuração atualmente prevista contempla até 22 aerogeradores, com uma potência instalada de aproximadamente 158 MW, destinados a complementar a produção de uma central fotovoltaica na região de Ourique.
Quercus questiona localização de parte das torres
Entre os argumentos apresentados pela organização ambientalista está a localização de quatro aerogeradores no concelho de Ourique. De acordo com a Quercus, os equipamentos identificados como AG19 a AG22 estão previstos para áreas de solo rústico onde, atualmente, existem medidas preventivas e uma suspensão parcial do Plano Diretor Municipal que impedem a instalação de novos projetos de energias renováveis. A associação refere ainda sobreposições com áreas integradas na Reserva Agrícola Nacional e na Reserva Ecológica Nacional.
A organização chama também a atenção para a proximidade do empreendimento a áreas classificadas ambientalmente. Embora o projeto não esteja diretamente implantado dentro dessas zonas, a área de intervenção situa-se a cerca de 5,1 quilómetros da Zona de Proteção Especial de Castro Verde, 8,6 quilómetros da ZPE de Piçarras e 5,1 quilómetros da Zona Especial de Conservação Costa Sudoeste. O projeto atravessa ainda, segundo a Quercus, o corredor ecológico “Cintura de Ourique”.
Aerogeradores podem chegar aos 200 metros
A dimensão das estruturas é outro dos aspetos destacados pela associação. Os aerogeradores previstos terão rotores com 172 metros de diâmetro e uma altura que pode atingir os 200 metros.
A Quercus considera que a instalação de equipamentos desta dimensão poderá aumentar a fragmentação dos habitats e afetar espécies de aves de rapina, aves estepárias e morcegos. A associação critica ainda o facto de a documentação atualmente em consulta não apresentar, nesta fase, um inventário completo da fauna nem modelações prévias das rotas migratórias, remetendo esses elementos para o Estudo de Impacte Ambiental.
A construção de acessos e plataformas para os equipamentos é igualmente apontada como potencial fonte de impactos, nomeadamente pelo corte de sobreiros e azinheiras, espécies protegidas.
Maioria dos aerogeradores ficará em Odemira
Dos 22 equipamentos previstos, 18 estão projetados para o concelho de Odemira, nas freguesias de São Martinho das Amoreiras, Luzianes-Gare e Santa Clara-a-Velha. Os restantes quatro estão previstos para Santana da Serra, em Ourique.
A Quercus manifesta preocupação particular com as zonas serranas de Odemira, onde identifica declives acentuados, cabeceiras de linhas de água e áreas de infiltração associadas às bacias hidrográficas dos rios Mira e Sado. Na perspetiva da associação, os trabalhos de construção e movimentação de terras poderão aumentar os riscos de erosão e afetar recursos hídricos.
Associação pede estudos antes do licenciamento
Perante os impactos que identifica, a Quercus defende uma reformulação do projeto, incluindo a retirada ou relocalização dos aerogeradores previstos para áreas consideradas incompatíveis com os instrumentos de gestão territorial.
A associação pede ainda uma monitorização contínua, durante pelo menos 12 meses antes do licenciamento, das populações de aves e morcegos, com particular atenção às espécies estepárias e às aves de rapina.
Entre as medidas propostas está também uma avaliação dos impactos cumulativos de outras centrais fotovoltaicas, parques eólicos e linhas de alta tensão existentes ou projetados num raio de 15 quilómetros, além da preservação do corredor ecológico “Cintura de Ourique”.
Do lado da Galp, a empresa explicou anteriormente que o projeto pretende combinar a produção solar e eólica na mesma área. A construção, segundo a informação transmitida pela empresa à Lusa, não deverá começar antes de 2029, tendo em conta as várias fases de desenvolvimento e licenciamento ainda necessárias.
O projeto encontra-se atualmente identificado no sistema da Agência Portuguesa do Ambiente como “Parque Eólico do Mira – Hibridização da Central Fotovoltaica de Ourique”, abrangendo os concelhos de Odemira e Ourique.
Rádio Castrense / Lusa
Imagem: Rádio Castrense





















