Tal como a Rádio Castrense noticiou em exclusivo, no final do mês de agosto deste ano, registou-se a renúncia aos mandatos por parte dos eleitos do Executivo e da Assembleia de Freguesia da Senhora da Graça de Padrões, pertencentes ao Movimento Independente Unidos Pela Freguesia.
A única exceção foi o presidente da Junta de Freguesia, Gabriel Guerreiro, que, segundo o próprio, apesar de ter sido “sujeito a várias pressões”, recusou demitir-se.
A decisão provocou a perda de quórum na Assembleia de Freguesia e deu origem a uma profunda crise política e institucional, com o presidente da Junta, Gabriel Tomás Guerreiro, a denunciar “pressões políticas”, situação que chegou a colocar a freguesia perante a possibilidade de realização de eleições intercalares.
Num documento explicativo enviado à Rádio Castrense no dia 25 de agosto, intitulado “Pelo Futuro de Senhora da Graça dos Padrões: A Responsabilidade Perante a Freguesia”, Gabriel Guerreiro manifestou o seu “mais profundo lamentar” perante aquilo que classificou como uma “decisão deliberada e destrutiva”.
Segundo o presidente da Junta, “a rutura teve origem no seu regresso ao cargo, depois de se ter visto obrigado a solicitar a suspensão temporária do mandato entre os meses de abril e julho deste ano, devido a problemas de saúde”.
O autarca sublinha que “a decisão de se afastar temporariamente foi tomada de forma transparente e honesta para garantir que o executivo continuasse a funcionar em pleno enquanto recuperava fisicamente para servir a população”.
Contudo, ao retomar as funções para as quais, sgeundo lembra foi “democraticamente eleito há menos de um ano”, Gabriel Guerreiro afirma ter sido alvo de “acusações desprovidas de qualquer fundamento ou lógica”.
Entre os exemplos apontados pelo autarca “estão o facto de não ter parado num café local, de não ter perguntado a um elemento do voluntariado se pretendia uma garrafa de água ou de não ter estado presente numa festa organizada pela Junta”, precisamente durante o período em que se encontrava “de baixa médica e com o mandato suspenso”.
Marisa Pereira contesta atuação do presidente
Já Marisa Pereira, número dois do Executivo da Freguesia e também demissionária, explicou no final de agosto à Rádio Castrense que renunciou ao mandato “depois de constatar comportamentos do presidente” que, na sua perspetiva, deixaram de corresponder ao “espírito de equipa e de cooperação que deve existir numa instituição pública”.
A autarca afirmou então, não se rever “nas atitudes autoritárias e narcisistas de Gabriel Guerreiro”, recordando que “a Junta de Freguesia não é propriedade de ninguém”.
Marisa Pereira referiu ainda que “os cargos nunca foram a sua prioridade”, concluindo que “cabe, agora, aos residentes e naturais da freguesia escolherem quem querem para ficar à frente da Junta de Freguesia”, que considera ser “um espaço de liberdade e de todos os fregueses, pois são eles a essência de tudo”.
Reunião na Semblana procurou solução para a crise
Na sequência destes acontecimentos, que chegaram a colocar a Senhora da Graça de Padrões perante a possibilidade de eleições intercalares, realizou-se na passada segunda-feira, 14 de setembro, uma reunião na localidade da Semblana, naquela freguesia.
A reunião foi aberta à população e “teve como objetivo procurar uma solução para o futuro da Freguesia da Senhora da Graça de Padrões” disse Gabriel Tomás Guerreiro.
O autarca em funções explicou que solicitou “um parecer técnico-jurídico à ANAFRE – Associação Nacional de Freguesias”, onde expôs toda a situação e apresentou “diversas dúvidas relativamente ao procedimento a adotar”.
Segundo o parecer, citado por Gabriel Guerreiro, “não se justificava enquadramento legal para a realização de eleições, uma vez que ambas as listas das forças políticas eleitas ainda contavam com elementos suplentes que poderiam assumir funções”.
O parecer terá indicado ainda, segundo o autarca, que “a Assembleia de Freguesia pode ficar a funcionar e deliberar todas as decisões com apenas 4 elementos, existindo assim quórum para funcionar”.
Os restantes três lugares, que pertenciam aos eleitos do Movimento Independente, permaneceram vagos, uma vez que, de acordo com Gabriel Guerreiro, a lista não dispõe de mais elementos suplentes disponíveis.
Acordo com o PS afasta eleições intercalares
Nesta Assembleia Extraordinária, o presidente Gabriel Guerreiro revelou ter chegado a um entendimento com o Partido Socialista, com o objetivo de “garantir a continuidade do regular funcionamento da Junta de Freguesia”.
Segundo o autarca, foi estabelecida uma coligação entre o Movimento Unidos pela Freguesia e o PS de Almodôvar.
Com esta decisão, cai por terra a possibilidade de realização de eleições intercalares na Senhora da Graça de Padrões.
Mas a solução encontrada poderá ter consequências para além da própria freguesia, alterando o equilíbrio político na Assembleia Municipal de Almodôvar.
PS passa a ter vantagem na Assembleia Municipal
Até agora, o PSD – Partido Social Democrata mantinha a maioria na Assembleia Municipal de Almodôvar, na sequência dos resultados das eleições autárquicas de 2025.
Para além dos três membros da Mesa — presidente, secretário e segundo secretário —, o PSD conquistou cinco deputados municipais. A estes juntaram-se os presidentes das Juntas de Freguesia de Santa Cruz, Almodôvar e Gomes Aires, eleitos pelo partido.
Deste modo, o PSD contava com 11 membros em condições de votar as decisões daquele órgão.
O PS – Partido Socialista conquistou sete deputados municipais. A estes juntaram-se os presidentes das Juntas de Freguesia eleitos pelo partido, nomeadamente Santa Clara-a-Nova, Aldeia dos Fernandes, Rosário e São Barnabé, totalizando igualmente 11 membros em condições de votar.
Neste cenário de empate, Gabriel Guerreiro e o Movimento Unidos pela Freguesia assumiam uma posição decisiva, podendo desempatar as votações na Assembleia Municipal.
Com a aliança agora estabelecida entre Gabriel Guerreiro e o Partido Socialista de Almodôvar, o PS passa a contar com 12 elementos, contra 11 do PSD.
Embora o autarca da Senhora da Graça de Padrões se mantenha independente, o “compromisso assumido entre este e o PS”, segundo Gabriel Guerreiro, prevê que o seu sentido de voto seja “alinhado” com esta força política.
A solução encontrada para a crise na Junta da Senhora da Graça de Padrões altera, assim, o equilíbrio de forças na Assembleia Municipal de Almodôvar e afasta, para já, o cenário de eleições intercalares na freguesia.






















