Um conjunto de docentes do ensino superior português está a exigir a proibição do recurso à inteligência artificial generativa nas universidades e institutos politécnicos, alertando para impactos profundamente negativos no processo de aprendizagem e no desenvolvimento intelectual dos estudantes. A posição consta de um manifesto subscrito por 28 professores de várias instituições do país, no qual defendem a necessidade de humanizar o ensino superior e de afastar estas tecnologias dos contextos pedagógicos, considerando que os alunos se tornaram “as principais vítimas do universo digital”.
No documento, os subscritores sustentam que a utilização generalizada da IA está a destruir métodos tradicionais de estudo e trabalho académico, substituindo-os por grandes modelos de linguagem e chatbots que funcionam como autênticas fábricas de banalidades, promovendo práticas de fraude e plágio em larga escala. Esta realidade, afirmam, conduz à transformação dos estudantes em “cretinos digitais”, expressão utilizada no texto para caracterizar a perda de espírito crítico, curiosidade intelectual e envolvimento com o conhecimento.
Os professores alertam ainda para consequências graves ao nível da saúde mental dos alunos, referindo um aumento significativo da ansiedade e um desinteresse crescente pela aprendizagem, num contexto em que a aventura intelectual é substituída por respostas automáticas e acríticas. Segundo o manifesto, esta degradação não afeta apenas os estudantes, atingindo igualmente os docentes, que se veem submersos num “dilúvio digital” que difiche cada vez mais a deteção rigorosa de práticas académicas fraudulentas.
O texto critica duramente a atitude da maioria das instituições de ensino superior, acusando-as de terem adotado uma política de portas abertas à IA por receio de ficarem para trás no chamado progresso tecnológico. Na perspetiva dos subscritores, essa opção traduz-se numa estratégia “suicidária”, limitada à produção de declarações genéricas, regulamentos pouco eficazes, despachos, circulares, conferências, workshops e grupos de trabalho cujo impacto consideram praticamente nulo.
Para os docentes que assinam o manifesto, se ainda subsistem preocupações reais com o futuro dos estudantes, dos professores e das próprias instituições, o único caminho possível passa pela suspensão generalizada do uso de ferramentas de inteligência artificial generativa nos processos de ensino e aprendizagem, apesar dos riscos e dificuldades associados a essa decisão. Entre os subscritores encontram-se nomes como Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático aposentado de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, João Teixeira Lopes, catedrático da Universidade do Porto, Elísio Estanque, professor associado jubilado da Universidade de Coimbra, e Raquel Varela, professora auxiliar com agregação da Universidade Nova de Lisboa.
O manifesto conta ainda com assinaturas de docentes como Ema Pires, professora auxiliar da Universidade de Évora, Luíz Souta, professor coordenador aposentado do Instituto Politécnico de Setúbal, e Raúl Iturra, catedrático emérito do Iscte, todos convergindo na defesa da proibição da IA no ensino superior e na necessidade de encontrar alternativas pedagógicas.
As preocupações expressas pelos professores encontram eco em análises internacionais. A OCDE divulgou recentemente o relatório “Digital Education Outlook 2026”, no qual analisa as mais recentes investigações globais sobre o impacto da inteligência artificial generativa na educação. Um estudo citado, realizado com estudantes norte-americanos, revelou que os alunos que recorreram a ferramentas de IA obtiveram classificações mais elevadas nos trabalhos académicos. Contudo, pouco tempo depois, eram incapazes de citar ou recordar excertos do que tinham produzido, ao contrário da maioria dos estudantes que não utilizaram estas tecnologias, fenómeno que os investigadores associam ao que designam como “preguiça metacognitiva”.
Rádio Castrense / Lusa














